quinta-feira, 12 de agosto de 2010

POEMAS DE HELENA ORTIZ

em par

posso mudar esse passado — é meu
Izacyl Guimarães Ferreira


posso mudar essa lembrança — é minha
inventar clima e cenário
azul as paredes
encher o sol
as janelas que choviam
posso abrir as portas
par em par
dar-te cor aos lábios
à face fria

ao transpor o portal
estamos juntas

e essa lembrança nem havia





fraterna


três machos sem direito a cópula
cagam três vezes ao dia
num cativeiro moderno

recolha-se a merda
banho e ração
Ralph, Mateus e Subcomandante
Pastores pastoreando, passarinhos
ó como eu gosto de animais

três machos sem direito a cópula
ouvem o canto da sereia
no quintal de seu monastério

atacam-se decepando orelhas
mordem saco lombo jugular
em meio a latidos vão fazendo
vermelha a arena do combate

agora aí estão lambendo-se
lambendo-se as feridas como irmãos



Pena


110 anos de abolição
e não estamos muito longe
das práticas anteriores

Os negros carregam nossas cadeiras
recolhem nosso lixo
varrem nossa sujeira
trazem mate
mate-limão
coca-cola
coca light

Se queremos,
trazem também a preta
ou a branca, se queremos
Mas se preferimos matar
seguir matando
eles nos trazem as armas
e fazem o serviço sujo

E, se por acaso,
alguma coisa não der certo
Se, por azar,
ou se Deus não permitir
escapar do flagrante
do inquérito, do esquema
eles vão mais uma vez
pelo crime cometido por nós
cumprir a pena 110 anos.

5 comentários:

JIVM disse...

Bela entrevista!
Há cinco anos entrevistei Helena Ortiz, quando veio para Salvador para participar do projeto Poesia na Boca da Noite, onde lançou seu livro de poemas "Sol sobre o dilúvio".
Nesta entrevista, conduzida com maestria por Vitor Nascimento Sá, Helena demonstra sobriedade e sabedoria, sem os arroubos tão característicos dos poetas imaturos. Parabéns a ambos. Abraços.

JIVM

maria luiza disse...

Gente para tosdos que virem esse comentário eu admiro os poemas dela gosto e admiro muito gosto de todos todos mesmo mas na minha conclusão gosto mais de Pena e Em par esse é o meu comentário a mande oseu te esperamos.

Por que você faz poema? disse...

Realmente, serena as palavras.

Aleandro disse...

Belos Poemas, bons de recitar e fora que causa uma emoção diferente em quem ouve ou ler.
foi um prazer poder participar de mais uma etapa do Projeto e conhecer essa pessoa fantástica "Helena Ortiz". Parabéns a todos que fazem esse Projeto seguir em frente e sempre nos revelando pessoas Talentosas e de bom Gosto!

Marcelo Nascimento disse...

Poemas que realmente emocionaram o público e também a nós integrantes do Grupo Concriz, é esse efeito maravilhoso que nos dar força para proseguir recitando poemas por aí.
Obrigado Helena Ortiz por sua generosidade e por sua palavras de sabedoria.

SENTIDO

Os homens vinham e havia um caminho.
Continuavam, e o prumo os esperava,
e eles seguiam acreditando nisso:
sempre rumar – sempre sempre sempre.

Os homens nunca chegavam a algum lugar,
mas iam eternamente em busca de,
pois não queriam nem suportariam
entender a verdade do lugar nenhum.

JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO