Mostrando postagens com marcador Entrevistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Entrevistas. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Entrevista do poeta José Inácio Vieira de Melo à UNESP



Ouça abaixo a entrevista do poeta José Inácio Vieira de Melo à UNESP. Ela está disponível também no Portal Cronópios, na sessão Perfil Literário, onde há entrevistas com centenas de outros escritores brasileiros.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Edelvito Nascimento entrevista Astrid Cabral


-->
O VOO PELO INFINITO, A BUSCA DO QUE NÃO É ÓBVIO

Publicada em www.verbo21.com.br (edição de novembro de 2010)

Depois de estudar cinco idiomas e rodar o mundo, ela chegou à conclusão de que é mesmo um bicho da terra e que continua com raízes fincadas na Amazônia de sua infância e adolescência. Astrid Cabral nasceu em Manaus em 25 de setembro de 1936. É poetisa, contista e professora. Viúva do poeta Afonso Felix de Sousa, considera sua escrita essencial à sua própria existência. Nessa entrevista concedida a Verbo21, ela fala sobre sua obra, o telúrico e o temporal como temáticas recorrentes, o futuro da literatura e sua recente visita à Bahia, onde participou de três projetos em Salvador, Maracás e Jequié.

Edelvito Nascimento - Depois de mais de uma dezena de livros publicados e de ter participado de tantas antologias, você chega à conclusão de que vale a pena escrever, dedicar tanto tempo à poesia, mesmo num país de poucos leitores, como o nosso?

Astrid Cabral - Sim, vale a pena. A poesia é uma forma de paixão e é a paixão que valoriza a vida. Para mim a vida seria muito insípida se a poesia não me assaltasse de vez em quando. Ser poeta é uma maneira de ser. Não há como fugir. É ela que me mantém inteira e me ajuda a viver. É a bengala que me ajuda a caminhar pelos caminhos mais pedregosos. É o único cigarro que fumo.

EN - É notável, em alguns poemas, o questionamento existencial, a fugacidade da vida humana, “curto instante de glória”, e o tema da saudade. Noutros, encontramos referências ao cotidiano, ao tempo presente, “a volúpia da hora”. O tempo é algo que lhe incomoda?

AC - Certo, o tempo é um dos temas nucleares de tudo que escrevo, e escrever é um modo de driblar o efêmero da vida. Quando leio um poeta que já morreu, me convenço de que continua vivo através da sua voz. A arte é uma espécie de tábua de salvação, idem da religião. Viver é essencialmente trágico, por isso criamos estratégias de sobrevivência.

EN - Mas esse pensar sobre o tempo, também está de olhos no passado. O poema Aquém do Hoje, por exemplo, volta-se para a origem de tudo e, metaforicamente, à escuridão que precede toda existência, até mesmo a do próprio tempo. Então, onde está o poeta nessa eternidade em que não enxergamos nem princípio nem fim?

AC - Nós, os poetas, gostamos de namorar abismos. O nada é um deles. Idem, a escuridão. Mas os abismos podem ser sobrevoados e é o que os poetas costumam fazer, rondando o mistério e apalpando as trevas, buscando uma revelação por mais modesta que seja, feito a luz de uma vela.
Quando escrevi esse poema tinha entrado na universidade, e tinha apenas 18 anos. Foi um lance poético de intuição e curiosidade.
Quando morava nos EEUU, década de 80, li um grande poeta de língua inglesa, o William Butler Yeats, e me deparei com versos dele que tinham a ver com a minha indagação desse remotíssimo passado. Dizia ele: I look for the face I had before the world was made. A poesia é isso, o mergulho no profundo, o voo pelo infinito, a busca do que não é óbvio. As outras informações, os demais conhecimentos, estão nos jornais do dia, são matéria dos programas de televisão.

EN - Em 2006, você publicou uma antologia pela Editora da Palavra que intitulou de Jaula. Ali há poemas com referências a animais. Por outro lado, a natureza como um todo é muito recorrente em seus textos. Fale um pouco dessa sua ligação com a terra, com a vida, com a floresta no meio da qual você nasceu.

AC - Sou de fato uma telúrica. Abeberei-me na cultura, estudei cinco línguas, li centenas de livros, viajei pelo mundo, mas estou sempre de raízes fincadas na Amazônia da minha infância e adolescência, de olhos abertos para o mundo concreto que me cerca.
Somos bicho da terra, amigo, a despeito de nossos ímpetos de voo e extravio pelo mundo das abstrações e do espírito.
Há um ditado da filosofia medieval, não sei se é de São Tomás de Aquino, que diz: Nihil est in spiritu quod primus non fuerit in sensu. Assim, somos antes de tudo carne e osso, o chão sendo nosso lugar primeiro. Tudo que chega ao nosso pensamento já passou pelos cinco sentidos e esse nosso lado animal tem que ser respeitado e louvado. No livro Jaula, sublinho o parentesco profundo que mantemos com todos os seres animais. No livro Alameda, estou ligada ao seres vegetais. Também me irmano aos entes minerais. A água encharca meus poemas, e canto as pedras em alguns deles.

EN - Nesse tempo de muita informação em pouco tempo, proliferam-se as modalidades de literatura curta (o mini-conto, o micro-conto, os haicais) e o uso de diversos suportes como alternativas ao livro (os sites, blogs, microblogs). Qual o destino da literatura? Isso é algo que lhe preocupa?

AC - O futuro da literatura não me preocupa. Acho que o ser humano, em que pesem as mudanças contínuas, preserva uma identidade de eterna insatisfação. Assim sendo, a arte e a religião são sempre absolutamente indispensáveis para suprir a sede da alma.
A remotíssima história sempre nos apresenta formas do uso superior e não utilitário da palavra, hinos religiosos, oráculos, cânticos de trabalho, de guerra, de embalar crianças. Digamos que as formas e os suportes mudam ao correr dos tempos. Passamos dos tijolos cuneiformes da Babilônia aos e-books cibernéticos, mas o ímpeto criador e o pensamento feito palavra sempre sobreviverão.

EN - Quais são as principais diferenças entre a Astrid poeta e a prosadora?

AC - Suponho que elas não sejam tão antagônicas. Primeiro porque há certa coerência no meu modo de ser, depois porque não acredito em fronteiras rígidas e intransponíveis. Creio que minha prosa é fundamentalmente lírica e que a minha poesia, por ser uma poesia de vigília, onde não fecho os olhos à realidade, mas procuro arregalá-los para enxergar além, instaura um clima mais crítico talvez do que sonhador. Nos contos de Alameda, meus personagens são vegetais, um ponto de partida bem irreal, portanto nada prosaico. Já em alguns de meus poemas chego a ser uma hiper realista feroz. Atitude contraditória? Mas a vida é essencialmente feita de imprevistas surpresas e a literatura acompanha essa complexidade do ser.

EN - Você esteve recentemente na Bahia, participando de três projetos de literatura. Conte-nos sobre essa sua recente experiência.

AC - Considero uma experiência muito rica essas sessões de poesia em Maracás, Jequié e Salvador. O formato do projeto permitiu concentração no trabalho individual de um único poeta por vez. Em geral os eventos de poesia sempre apresentam visão panorâmica e coletiva, sem que o público possa de fato sentir o perfil estético de cada criador. Nesses eventos de muitos participantes, cada um se apresenta de modo muito sumário, sem chance de apresentar a complexidade e variedade de sua obra.
Quanto ao público, constatei que ele cresce na proporção inversa ao tamanho das cidades. Assim o auditório de Maracás estava cheio, o de Jequié com razoável número de ouvintes e o de Salvador com apenas 20 pessoas. Em vista disso, julgo que as cidades pequenas deveriam ser cada vez mais escolhidas para abrigar projetos dessa natureza. A descentralização se mostra uma estratégia muito eficiente para o crescimento cultural do povo.

EN - Mas você também participou de projetos de objetivos semelhantes no Rio (Panorama da Palavra) e no Amazonas (Clube da Madrugada), mas de natureza diversas.

AC - De fato tenho participado de alguns projetos de oralização da poesia. Cada qual com suas particularidades determinadas pela época e pelo local. O Clube da Madrugada já completou 56 anos de existência e floresceu numa Manaus letárgica e provinciana. Nunca teve grande público, era um grupo pequeno de jovens idealistas que se reuniam informalmente, sem alarde, em praças, botecos e casas de amigos.
Durante anos estive longe de qualquer movimento, pois vivia em função dos filhos, nos pioneiros anos de Brasília, ou nas temporadas em que trabalhei no exterior. Só no final dos anos 90 é que participei com assiduidade de vários movimentos, com ênfase no Panorama da Palavra e no Poesia Simplesmente. A partir dessa época é que o espetáculo poético se impôs propriamente, buscando locais apropriados como os teatros e atraindo um público variado, de maior âmbito.
Nas décadas de 60, 70 e 80, a poesia era um fenômeno preferencialmente escrito e silencioso. À medida que o espaço foi minguando nos jornais e revistas, a poesia passou a lançar mão da oralização como recurso de sobrevivência, embarcando na inevitável atualização de aderir à tendência contemporânea do espetáculo.

EN - E o que há de novo em sua gaveta?

AC - Estou com o livro de poemas Palavra na berlinda, a ser publicado em breve, pela IBIS LIBRIS, da poeta e editora Thereza Christina Rocque da Motta.
Disponho também do inédito Sobrescritos, rastros de leitura, reunião de textos críticos esparsos (resenhas, palestras, prefácios etc) que a Universidade do Amazonas se propôs a lançar há uns 3 anos. Além disso, no momento organizo o livro Íntima fuligem, um poemário dividido em duas partes: Clareira e Caverna, assim denominadas pelo clima de otimismo ou pessimismo que caracteriza as composições.
Tenho outros projetos, mas ainda embrionários e alguns contos inéditos que devo examinar para aproveitar ou rasgar.
___________________
Edelvito Nascimento (5/6/82) é baiano de Maracás. Tem trabalhos publicados na Verbo 21, Cronópios, Correio das Artes (PB) e Revista Blecaute (PB). Poeta e professor de literatura, formado em Letras na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), é co-diretor do Grupo CONCRIZ, equipe de jovens recitadores e poetas que tem realizado diversos recitais desde 2005.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Edelvito Nascimento entrevista Helena Ortiz




Para ela, “se existe um compromisso, é só com a poesia”. E é de mãos dadas com essa arte que Helena Ortiz vem seguindo há um bom tempo, seja nos eventos de poesia, na sua própria escrita ou no trabalho com a editora. Neste mês de agosto, a Bahia a recebe em três eventos de literatura: Uma Prosa Sobre Versos (no dia 13, em Maracás), Travessia das Palavras (no dia 14, em Jequié) e Com a Palavra o Escritor (Salvador, no dia 18). Em entrevista a Edelvito Nascimento, a poeta fala sobre a rota de amadurecimento de sua escrita, os textos inéditos e o sua opinião sobre o futuro da poesia.


Edelvito Nascimento – Igor Fagundes compara a sua poesia à arte fotográfica; e a sua prosa, ao cinema. Assim também você concebe sua escrita? Ou qual é a fronteira entre a poeta e a contista?

Helena Ortiz – Não seria eu a discordar do poeta-crítico que é Igor Fagundes, que tem me dedicado estudo e amizade e a quem muito sou grata. O verbo conceber, no entanto, tem muitos significados. Eu diria que a minha poesia resulta em fotografias porque registra o momento em que se dá o acontecimento e, naturalmente, como uma fotografia de arte, expressa pensamento e sentir. Ressalto, no entanto, que não é um objetivo pré-formulado. Por isso uso o termo resultar para dizer que não é intencional. Apenas é a minha maneira de ler a realidade e traduzir o que sinto.

EN – O drama humano está muito presente em Pedaço de Mim. Tanto que o título já anuncia a perda, a despedida, a ausência de algo fundamental à existência. Por outro lado, em livros subsequentes, como Em par e Sol sobre o Dilúvio, esse tema torna-se menos recorrente, embora não inexistente. O que acontece nesse meio tempo? A escrita amadurece para uma impessoalidade? A dor diminui? A dor se metamorfoseia?

HO – Não sei se você já viveu uma grande perda e nem sei se a perda de um filho é, como dizem, a maior de todas. Mas como acontece com todos, aprendemos a criar defesas, buscamos lenitivos e suportes, e de fato, como você diz, a escrita amadurece. Deixamos de nos ater à nossa própria angústia para sermos porta-vozes das angústias do mundo. Eu diria que depois de uma grande dor, as outras todas se tornam suportáveis. E o tempo, esse milagre, faz com que não latejem muito as nossas feridas. Vai transformando em lembranças os sofrimentos que nos fizeram sangrar. Vamos transformando essas lembranças em sonhos. E os sonhos em poesia. Veja que o próprio título indica que todo o dia há que se lutar como sobrevivente de uma catástrofe, que é o que podemos chamar um dilúvio.
Já lá se vão 20 anos desde que Alice morreu. Muitas pessoas com quem convivo hoje nem sabem que ela um dia existiu. Durou tão pouco. Nem completou quatro anos. No entanto vive comigo, transformou-se em mim, resistência e combate. Por isso respondo sim à sua pergunta. A dor diminui porque se transforma. Há três poemas escritos a partir da memória dela no em par e quatro no sol sobre o dilúvio. Depois de 15 anos.

EN – Seguindo essa rota de amadurecimento, você tem agora, para sair, o livro Poemas Possíveis. Como foi a construção desse novo trabalho? E o que você espera dele?

HO – Bom, o título Poemas possíveis já não é mais possível. Ocorre que com a morte recente de José Saramago soube que ele também já escreveu um livro com esse nome. Vai daí, achei melhor buscar outros.
Estou tentando fazer um pequeno livro, uma plaquete, na verdade, para não ir sem um trabalho novo à Bahia, em relação à poesia, porque o livro de contos é recente. E optei por chamá-lo apenas de POEMAS. São apenas 19 poemas dos quais eu gosto mais dentre a produção a partir de 2005, quando saiu sol sobre o dilúvio. E optei por apresentá-los também em espanhol porque acho que estamos muito isolados da cultura latino-americana. Precisamos chegar mais perto de los hermanos.
O que eu espero dele? Espero vê-lo pronto, apenas. E que seja lido. E se porventura despertar em alguém o interesse pela poesia, ou uma emoção, já está bem. Se existe um compromisso, é só com a poesia. É de mãos dadas com ela que eu ando.

EN – O jornal Panorama da Palavra faz parte de um movimento de resistência no meio literário. Qual é o futuro da poesia nesse mundo cada vez mais técnico e sombrio? Editar o jornal dá esperança?

HO – Sim, editar poesia é resistir. Você vê que as pessoas procuram cada vez mais o que é superficial, fácil e instantâneo, enquanto a poesia é profunda, difícil e permanente. É nadar contra a corrente. No entanto, também temos leitores, na proporção possível.

Justamente porque o mundo se torna desinteressante e sombrio é que algumas pessoas, quando encontram a poesia, parece que encontram a si mesmas. Interessam-se, passam a ler e a escrever. Repare que há mais tempo eram raros os jovens que se animavam a publicar. Hoje publicam quem sabe cedo demais, mas perderam a timidez. Querem pertencer ao mundo dos poetas, querem ler e aprender. Vejo muito futuro para a poesia. E acho que as coisas são cíclicas. Depois do fosso de burrice e mediocridade em que estamos metidos, graças à falência dos meios de educação, isto é, políticas públicas e televisão, talvez possamos nos recuperar e caminhar na direção da luz e do conhecimento.

sábado, 5 de julho de 2008

ENTREVISTA: Roberval Pereyr - Entre a racionalidade e a experimentação

Por Edelvito Nascimento


Doutor em Letras, Roberval Pereyr é um dos fundadores da revista Hera, direcionada para a publicação de poesia em Feira de Santana desde 1973. Participou de várias antologias poéticas, foi vencedor de diversos prêmios de literatura e ainda é compositor e arranjador, tendo feito parceria com Marcio Pazin e Carol Pereyr. Nessa entrevista concedida a Edelvito Nascimento, em 11 de julho deste ano, no projeto Uma Prosa Sobre Versos (Maracás-BA), o poeta fala de sua poesia, da sua formação enquanto leitor e da leitura literária que prima pela experimentação em detrimento da interpretação.

EDELVITO NASCIMENTO - Você é professor, poeta, ficcionista, teórico da literatura. Como concilia essas diferentes atividades culturais?

ROBERVAL PEREYR - Eu concilio tudo isso na perspectiva do criador. Quando eu sou professor, eu sou criador; quando sou teórico e, evidentemente, quando escrevo poesia ou ficção, também estou criando. Para mim não é difícil reunir essas atividades, pois tudo parte de uma raiz, que é a criação. A única distinção entre elas é que as linguagens se concretizam de maneiras diferentes.

EN - Quais foram as suas primeiras experiências com a leitura e a literatura?

RP - Eu havia iniciado os meus estudos na roça quando, aos onze anos, fui morar em Feira de Santana, onde estudei por um tempo, e depois fui para Salvador. Na minha casa não havia hábitos de leitura e, por isso, eu não tive uma infância de leitor comum da minha época e até de hoje. Por exemplo, quando criança, eu não cheguei a ler revistas em quadrinhos.
Comecei mesmo a me empenhar com uns quatorze ou quinze anos, lendo alguns livros de filosofia que caíam à mão. Lia um e outro livro, me fascinava, mas não era um leitor voraz. Lia em pequena quantidade, mas cada leitura que eu fazia era bem vivida e me marcava. De maneira que a minha iniciação no mundo da leitura não se deu de um modo comum.

EN - Foram essas leituras que lhe conduziram para a produção de literatura? Os seus estudos básicos desempenharam algum papel nisso?

RP - Desde cedo eu tive essa vocação natural pela língua Portuguesa e, embora minha história como leitor ocorresse mesmo fora da escola, nos dois colégios em que estudei, em Feira, fui estimulado pelos professores nesse sentido. Em alguns trabalhos escolares, cheguei a representar o papel de poetas, como Tomás Antônio Gonzaga, lendo os seus poemas vestido a caráter.
Foi também no colégio municipal que Antonio Brasileiro apareceu e me convidou para fazer a revista Hera. Nessa época eu já era escritor: já havia começado um romance de aventura (que acabou pela metade), já escrevia crônicas e participava de concursos nessa modalidade... Enfim, na época de escola, eu já trazia essa sede pela literatura e pela linguagem, embora o caminho para a poesia não tivesse ainda se definido. Depois de algum tempo, eu comecei a escrever poemas e isso foi se configurando, ganhando forma, muito rapidamente. E até hoje, nas antologias e seleções que faço, há entre os escolhidos poemas daquela primeira fase.

EN - Você dirigiu vários números da revista Hera. Fale um pouco sobre a sua participação nesse grupo e da importância dele para a cultura de Feira de Santana.

RP - Em Feira de Santana, costuma-se dizer que a literatura (e, mais especificamente, a poesia) pode ser dividida em antes e depois da revista Hera. De fato, ela tem sido vista como um divisor de águas.
Surgiu no final de 1972, sob a liderança de Antonio Brasileiro, poeta de Salvador, que foi ensinar em Feira no colégio estadual onde estudávamos eu e alguns colegas que também vieram fazer parte desse grupo. Nós aceitamos o convite de Antônio Brasileiro e fundamos a revista. A partir do ano seguinte, no terceiro número, eu passei a dirigir a publicação, inicialmente com o próprio Brasileiro e, posteriormente, com a ajuda de outros membros.
Hoje, mais de 35 anos depois, a revista acabou se tornando uma referência que não se limita a Feira de Santana. Devido à grande repercussão que teve, a revista conseguiu criar uma história. Além disso, até onde tenho conhecimento, a Hera, entre as revistas brasileiras dedicadas a publicar apenas poesia, é a que mais durou até agora.

EN - Aleilton Fonseca afirma que você tem uma poesia de reflexão existencial. Para o escritor, a literatura preenche o vazio do homem? Ou essas necessidades humanas não fazem parte do objetivo do escritor?

RP - Eu sou movido a escrever. Porém não sei por que escrevo. Mas quando digo que não sei o motivo de escrever, quero dizer que não compreendo qual é a origem. Desde jovem tenho esse impulso pela criação e encontrei na linguagem poética o caminho para isso. Contudo, quando eu escrevo deixo transparecer as preocupações que tenho. Como carrego essas preocupações existenciais, isso acaba sendo uma coisa determinante em minha poesia. Mas, independentemente do direcionamento racional que o artista queira dar à sua poesia, ele cria pela necessidade de criar e as determinações são mais profundas do que as que vêm do plano meramente racional.

EN - A sua produção musical, juntamente com Marcio Pazin e Carol Pereyr, dá mais visibilidade à sua poesia? Ou essas duas criações, a poesia e a música, caminham separadamente, sem que haja entre elas uma influência na atenção que o público lhes dispensa?

RP - O trabalho de Marcio Pazin e Carol, com a minha participação na composição, ajuda sim a dar muito mais visibilidade à minha poesia. Até porque eles já conseguiram ser classificados e premiados em alguns festivais e isso implica em uma divulgação melhor das músicas em rádios, em jornais... Então isso propaga melhor a minha poesia. E as duas coisas andam juntas, porque a poesia, lá nas suas raízes, era cantada e acompanhada com a lira, portanto esse reencontro da poesia com a música é, em certo sentido, uma volta às origens.

EN - Seu último livro de poesia, Amálgama (2004), é uma reunião do que foi publicado desde As Roupas do Nu (1981) até Nas Praias do Avesso (2004). Quando observa todo esse conjunto, você reconhece alguma evolução ou alguma mudança de trajetória em sua poética?

RP - O primeiro livro de maior importância que fiz foi As Roupas do Nu. Antes dele, no início da década de 70, lancei Iniciação ao Estudo do Nu – em parceria com Antônio Brasileiro – e em 76, Cantos de Sagitário. Mas realmente foi em 1981, com As Roupas do Nu, que publiquei o que pode ser considerado o início da minha carreira, por ser um livro maior e mais representativo.
Mas não acho que a minha obra evolua. Ela vai se transformando à medida que vai ganhando mais consistência, incorporando as conquistas formais que obtive durante esse tempo e ganhando colorido especifico de cada momento de minha trajetória.
Por exemplo, eu percebo que hoje, ao contrário do que ocorria no início, o número de poemas mais duros é maior que o de poemas mais líricos. Estes, obviamente, continuam existindo, mas numa proporção bem menor que antes. Além disso, observando o teor filosófico, houve uma aproximação cada vez maior com um pessimismo existencial.
Entretanto, observando certos traços estilísticos (ritmo, vocabulário e a maneira de construir certas formas), noto que algumas características permanecem durante toda a minha trajetória poética.

EN - No prefácio de Amálgama, Valdomiro Santana afirma que ler literariamente não é interpretar, mas apenas experimentar. Como você vê essa afirmação?

RP - Ele advoga esse ponto de vista de que a poesia não se interpreta, poesia se vivencia. E, na verdade, a arte poética é isso mesmo. Como diz Octavio Paz, é um corpo a corpo entre o leitor e o poeta. Depois que se tem essa vivência, depois que o leitor se entrega ao poema e o traz para dentro de si, depois que ele invade o universo do poema e, ao mesmo tempo, permite que esse universo o invada... aí, então, o que ele afirma a respeito do poema é fruto dessa experiência.
É claro que nisso não deixa de haver traços interpretativos. Mas o que percebo nos diálogos que tenho com Valdomiro Santana, discutindo esses assuntos, é que ele entende a poesia como blocos de sensações que podem ser experimentadas pelo leitor. É claro que, quando alguém escreve sobre a poesia de algum autor, não há como eliminar alguns raciocínios interpretativos. Mas a operação de leitura da obra de arte não é meramente racional. É uma atividade em que entra em operação todo o nosso ser e, por isso, é uma vivência muito mais ampla que uma mera interpretação.


Observação: Entrevista publicada originalmente em julho de 2008, primeiro no Cronópios, depois neste mesmo blog.

Para citar:
NASCIMENTO, Edelvito. Entre a racionalidade e a experimentação: entrevista com Roberval Pereyr. Revista Cronópios. São Paulo, 2009. Disponível em: <http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=3737> Acesso: 31dez2009.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Uma entrevista em versos de cordel

JORNALISTA CAZZO AO CORDELISTA ANTONIO BARRETO.


Quem é Antonio Barreto?

 Se quiser me conhecer
Nem precisa perguntar !
Baiano lá do sertão
Santa Bárbara é o meu lugar
Sou substantivo próprio
Masculino, singular.

Quer saber da minha origem
Agora vou lhe dizer:
Vim do bico da cegonha
E nasci para aprender
Sou do signo de câncer
Sou sensível pra valer.

Sou o aboio dos vaqueiros
Pelos ventos da alegria
Nessa estrada empoeirada
Seja noite ou luz do dia
Sou o berro das manadas
O Cordel e a cantoria.


Quando o cordel tocou a veia de Antonio Barreto?

O cordel entrou em mim
E ferrou meu coração

Quando ainda era menino
Nas caatingas do sertão
Ouvindo o berro do gado
E atravessando a nado
As águas da solidão;

Reisado, bumba-meu-boi
Vaquejada, cantoria
Pau-de-sebo, quebra-pote
Forró e muita folia:
Foi assim o meu cenário
Nas corres do imaginário
Que eu jamais esqueceria.


Hoje vivo na cidade
Feito anjo que vagueia
Bebo as gotas do abismo
Mas corre na minha veia
Além de favos de mel
A doçura do Cordel
Que me encanta e me incendeia.


A Literatura de Cordel tem técnica ou faz-se verso de cordel livremente?

Na Europa, o Cordel
Era sempre feito em prosa;
No Brasil, é feito em verso
Essa arte grandiosa.
Ritmado a rigor
De uma forma harmoniosa.

 Além de escrito em verso
Temos que atentar à rima
De preferência soante
Pra tornar-se obra-prima
Pois a boa melodia
Nos encanta, nos anima...

Na poesia canônica
Faz-se verso livremente
Entretanto no Cordel
A regra é bem diferente
Rima e ritmo se completam
Mais-que-adequadamente


A discussão antiga: o Cordel é atemporal?

O cordel flui pelas águas
Do rio da simplicidade
Sua nascente vem do campo
Ao abraço com a cidade
Galopando por caminhos
De lonjuras e espinhos
Clamando por liberdade.

O cordel ao mesmo tempo
É vovô e é menino
É passado e é presente
Um mistério cristalino
O futuro rindo à toa
A nuvem que sempre voa
Sem parada e sem destino.

Ele não possui idade 
É tão velho quanto o mundo 
É tão jovem quanto o sol
Que renasce num segundo
Ou quem sabe vem da Grécia
Com magia e peripécia
No seu versejar profundo.


Guimarães Rosa é universal; James Joyce é universal. A poesia de cordel é Universal?

Guimarães e James Joyce
Sempre foram universais
Mas também há outro vate
Que possui muito cartaz:
Me refiro a Patativa
Poeta de voz altiva
Que em Sorbone é um ás.

E o Cordel não corre atrás
De estrelismo e troféus
Nossa arte popular
A transitar pelos céus
Sem inveja do arco-íris
Do trono Zeus ou Íris
Longe do banco dos réus.

Temos a convicção
Que a Cultura Popular
É amada e muito aceita
No Brasil e além-mar:
Nas pesquisas de Cantel
Luyten, Kurran: o cordel
Pôde universalizar.


Tem função social a Literatura de Cordel?

Haja função social
Nos folhetos de cordel
Uma vez que o cordelista
Desempenha o seu papel
De denunciar o sistema
Alertando o estratagema
Dos políticos de cartel.

Além disso os cordelistas
Desta nova geração
Têm se preocupado muito
Com os rumos da Educação
Levando o cordel à Escola
Dando um grande show de bola
Promovendo a inclusão.

Nós também denunciamos
A injustiça, a violência,
Desigualdade, racismo,
A ganância, a prepotência...
Somos antenas da raça
E mostrarmos a desgraça
Que todos pedem clemência.


Paulo Coelho tem cadeira na Academia Brasileira de Letras. O cordelista tem onde sentar na Academia?

Admiro o Paulo Coelho
Mas preciso contestar:
Penso que ele precisa
Sua cadeira ofertar
A Leandro ou Silvino
Patativa ou Minelvino
E depois se aposentar!

Cadeira em Academia
O cordelista não tem.
Pois ali é um ambiente
Que ao Cordel não lhe convém
Nosso lema é a grandeza,
Simplicidade e beleza
Sem jamais dizer amém!

Deixemos que a Academia
Siga a sua tradição
Usando o mesmo critério
Político de exclusão.
Mas quem sabe um belo dia
Para a nossa alegria
Ela dê voz ao sertão!


Há relação entre a Literatura de Cordel e a música?

Claro que há relação
 Da música com o cordel
Perceba que o menestrel
Toca em ritmo de baião,
Na rabeca, violão,
Na sanfona, na viola;
No pandeiro a gente embola
O verso metrificado.
E se for de pé quebrado:
O casamento não rola !


Há quem diga que o livro estará em extinção no futuro. E o folheto do cordel sobreviverá?

Eu sei que o livro sobreviverá
Ainda que o progresso se agigante
É mais fácil extinguir um elefante,
Político, raposa, tamanduá,
Caráter, vergonha, onça, gambá
O dinheiro, a justiça, a lealdade,
A ética, a fé, a dignidade...
Mas o Cordel que é fonte de cultura
Afirmo que ele sempre perdura
Nos dias de hoje e na eternidade!


Barreto, você respondeu em sextilha, septilha, décima, martelo... E o galope à beira-mar onde é que fica?

Eu sou sertanejo, estrela que brilha
Ninguém me humilha porque sou valente.
Eu brigo de faca, de murro, de dente...
Sou mais que a serpente, dragão armadilha
Também sou de paz e desejo partilha
Fogueira queimando sem nunca apagar
Estou sempre rindo, mas posso chorar...
Detesto avareza, ciúme, mentira,
Eu bato de frente no medo, na ira
E aprendo os segredos das águas do mar.


Barreto, faça uma brincadeira a la Zé Limeira – o Poeta do Absurdo!

Eu brinco de Zé Limeira
No espetáculo da loucura
Meu sorvete é rapadura
Os meus olhos são fogueira
Freud inventou a peixeira
Lampião a anestesia
Jesus Cristo se escondia
No quintal de Zé Raimundo
Me separo desse mundo
Mas não deixo a poesia.


Agora, Barreto, suas considerações finais em Quadra, afinal ela é o gênero que, através dos colonizadores ibéricos, introduziu o cordel no nordeste brasileiro!

Obrigado, amigo CAZZO
Pela bela entrevista
Que fizeste no momento
Com esse simples cordelista.

Eu espero que o leitor
Aprecie nosso trabalho
E perceba que o Cordel
Necessita de agasalho,

Apoio, divulgação
Nesse novo limiar
Porque ele é o ouro
Da Cultura Popular !

Aqui, todo meu apreço
Bordado de gratidão
Do Barreto, aprendiz,
Que veio lá do sertão...


Fim



Salvador, Junho de 2008.

Motivo

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

Cecília Meireles