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sábado, 6 de agosto de 2016

Teoria Geral da Guerra - Poema de Edelvito Almeida do Nascimento

PICASSO, Pablo. Guernica. Pintura a óleo (349×776cm). Madrid: Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, 1937.



Sangue e terra:
na olaria da morte,
o barro abstrato
(matéria do monumento
erigido ao nada).

Diante do abismo,
o fim diagramado dos mapas
sobre a mesa de generais aquartelados:
cada centímetro noturno
arrastado em mil fios,
entesados e enrodilhados,
dentro da trincheira imersa
no fosso da alma do soldado.

Sangue e terra:
barro nos pares de coturno,
morte emperrando a marcha
com todos os medos sufocados
na garganta do inimigo degolado.



segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Gênese do Dia - Poema de Edelvito Almeida do Nascimento

Cronos Mutilando Urano, por Giorgio Vasari e Gherardi Christofano (século XVI). Palácio Velho, Florença


Hoje, dia de feras,
Procusto me arrasta à sua senda,
estrada de aparar arestas.
Hoje, dia de feras,
sou encarcerado pelo céu
(Urano e seus velhos vícios)
e devorado pelo tempo
(Cronos chorando um blues
na solidão da sua guarita).

Hoje é dia de feras.
E eu, vítima de Minos.
E o fio?
Em algum ponto se perdeu entre feras
Em algum ponto se desfez
E como não ser eu agora
a carne de alimentar os deuses
dragões famintos, febres?

Eu e minhas pernas podres,
eu e o meu pouco fôlego,
eu e minhas doenças,
únicas verdadeiras propriedades.

Eu, fera de mim mesmo,
eu, auto-rei, auto-deus,
autófago, autômato, arauto.


sábado, 23 de julho de 2016

Caronte - Poema de Edelvito Almeida do Nascimento

Litovchenko, Alexander. A Travessia de Caronte. Óleo Sobre Tela. Museu Russo, São Petersburgo


Na primeira vez que vi Caronte,
minha vida pareceu mais acabada.

Mas passadas quase três eternidades,
mirando sua face na saída,

pareceu-me a única amiga
a que eu já tinha observado.

Na terceira vez que Caronte encontrei,
já trazia o coração despedaçado:
nem o cumprimentei, pobre barqueiro.

Paguei e ordenei que atravessasse.
Eu lamentando ter morrido de infarto
e com paixão mandando no meu peito.

Caronte, agora, encontro todo dia:
é porteiro do prédio onde trabalho.

Com bom dia o saúdo logo cedo;
vem trazer o meu jornal todo amassado.
E, ao sair, digo assim, meio com medo:
boa noite, meu barqueiro desgraçado.


Ouça o poema na voz do ator alagoano Chico de Assis:

sábado, 16 de julho de 2016

Jorge de Capadócia - Poema de Edelvito Almeida do Nascimento

Casamento de São Jorge e Sabra. Por Dante Gabriel Rossetti


Jorge de Capadócia
teu ginete pisoteia as medalhas lunares
princesas encouraçadas guiaram dragões
acorrentados aos bailes da paz
e a centúria não teme
atravessar os fogos
de sua garganta


Jorge de Capadócia
foste capaz de inaugurar
a alcova das santas
empunhar tua lança
despedaçar cortinas
e todas elas do céu lançar
sem hímen nem véu


o ferro de teu pé
é que faz a lua girar
e neste aparente ócio
marés se inclinam
e o mundo todo treme
sob tuas armas
Jorge de Capadócia

domingo, 23 de maio de 2010

Nosso adeus ao Fotógrafo da Poesia


Em 5 de junho de 2009, Damário Dacruz esteve em Maracás para participar do projeto Uma Prosa Sobre Versos. Foi um momento muito bonito. Damário sabia cativar platéias e seus versos curtos surtem um forte efeito em quem ouve. O Grupo Concriz fez um belo recital e tirou lágrimas do poeta do Pouso da Palavra.
Terminado o evento, fomos para uma pizzaria, onde conversamos bastante.
No dia seguinte o poeta de “Todo risco” partiu com sua namorada para Salvador, no ônibus das seis da manhã.
No dia 21 de maio de 2010, aos 53 anos e quase 40 dedicados à poesia, faleceu em Salvador, vítima de câncer. Foi enterrado em Cachoeira, onde deixou uma obra que vai além das suas publicações e que, hoje, permanece viva através do Instituto que leva o seu nome. Antes de falecer, porém, deixou sua despedida em forma de versos; o adeus de um poeta.



Damário Dacruz no Uma Prosa Sobre Versos

CANÇÃO DA DESPEDIDA
Para Damário Dacruz (In Memorian)

Em ti compus meus versos.
O Gran Finale talvez tenha
vindo antes do tempo,
mas nem sempre o relógio acerta.

O Concriz atrasou sua partida
pois, em maio,
o céu estava escuro.

Agora, sempre que junho vier,
lembraremos de ti,
porque um pássaro
nunca pára de voar
se nada lhe for arrancado.

Vive-se a poesia em teu nome,
porque tua presença
transcende outras vidas
e algo me fala,
no meu íntimo,
que te encontraremos
em outras
auroras.


Caroline Brito, 15 anos, é integrante do Grupo Concriz e estudante do Colégio Militar de Jequié-BA. O poema acima foi criado logo após a morte de Damário Dacruz e inscrito no TAL (Tempos de Arte Literária), concurso de literatura da Secretaria de Educação do Estado da Bahia para estudantes dos Ensino Básico.


domingo, 27 de dezembro de 2009

Poetas do Grupo Concriz


O Concriz, é um grupo de poetas e recitadores de poemas. Alguns integrantes do grupo, de diferentes idades, já escrevem belos poemas, alguns dos quais podemos vislumbrar aqui e agora.

Centauro


Estava passando na rua
e vi um centauro vermelho.
Ele era lindo e estrondoso.
Todos os dias, via aquele centauro
sempre no mesmo lugar.
Aquele centauro vermelho
lindo e estrondoso
andava comigo a todo instante.

Felipe Damasceno






Fillipe Lago Damasceno, de 9 anos, é integrante do Grupo CONCRIZ desde março deste ano e cursa a 3ª série do Ensino Fundamental no Colégio Moderno de Maracás. De uma inquieta curiosidade, quer saber de tudo, quer ler os livros de poesia que utilizamos e fica escarafunchando a internet em busca de notícias sobre o grupo e postagens nos blogs. Fillipe é doce, comportado e inteligente. Hoje publicamos o primeiro de quatro poemas de sua autoria. É um orgulho observar o nascimento prematuro de um poeta.



A noite dentro do dia

A noite queima o peito do cego
e o dia acaba com a frieza da noite.

A noite passa em vão
e o dia é indiscreto.

A noite é violenta
e o dia é inquieto.

A noite ferve dentro do peito cego.

Robson Nascimento






Robson Santos Nascimento, de 10 anos, estudante da 5ª série no Colégio Normal Municipal de Maracás. Robson faz parte do grupo desde 2008 e é um bom leitor de poesia. Já tem um projeto de um livro que versa sobre a temática do tempo.


Circo das palavras
  
Meu mundo é um picadeiro.
Não tenho lonas,
senão esse punhado de estrelas
que cobrem minha fronte.

Cada qual em seu ofício:
O meu é domar palavras,
às vezes lançá-las feito punhais
cravando-as em minha realidade.

Domar palavras e equilibrá-las
na ponta da língua, pensar antes de
deixá-las ganhar o respeitável público.

Marcelo Nascimento


Marcelo Nascimento nasceu em 1983, em Maracás, onde reside. É um dos coordenadores do Grupo Concriz. Cursa Letras na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), campus de Jequié.
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CARONTE

Na primeira vez que vi Caronte,
minha vida pareceu mais acabada.

Mas passadas quase três eternidades,
mirando sua face na saída,
pareceu-me a única amiga
a que eu já tinha observado.

Na terceira vez que Caronte encontrei,
já trazia o coração despedaçado:

nem o cumprimentei, pobre barqueiro.
paguei e ordenei que atravessasse,
eu, lamentando ter morrido de infarto
e com paixão mandando no meu peito.

Caronte, agora, encontro todo dia:
é porteiro do prédio onde trabalho.

Com bom dia o saúdo logo cedo;
vem trazer o meu jornal meio amassado.
E, ao sair, digo assim, meio com medo:
boa noite, meu barqueiro desgraçado.

Edelvito Nascimento

Edelvito Almeida do Nascimento (5/6/82) é baiano de Maracás. Tem trabalhos publicados no Cronópios e Correio das Artes (PB). Poeta e professor de literatura, formado em Letras na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), é co-diretor do Grupo CONCRIZ.

Motivo

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

Cecília Meireles